Muitas vezes nesse blog eu já comecei a escrever sobre algum filme. Seja “Inimigos Públicos” ou “Alta Fidelidade”, todos tiveram o mesmo destino: alguns parágrafos, preguiça, lixo. Fiquei com medo que isso acontecesse com “Inception”, mas me sinto na obrigação de tentar escrever alguma coisa sobre esse filme que acabou me proporcionando uma das melhores experiências que eu já tive naquela sala escura. Não, não essa que você está pensando.
Se você ainda não viu o filme, sugiro que vá. Rápido. Mas, como a essa altura você já deve saber, nem que eu fosse o rei da síntese eu conseguiria dar spoilers interessantes o suficiente pra te fazer desistir de assistir o filme. Não vou falar tanto sobre detalhes da trama ou dos personagens, só algumas coisas que passaram pela minha cabeça durante o filme. Enfim…
Em um panorama geral, um filme de Christopher Nolan, ainda mais depois da realização do excelente “The Dark Knight” gera uma expectativa acima do comum. Temos bons exemplos de novos diretores fazendo bonito em Hollywood, mas a grande maioria com roteiros adaptados. Maioria esmagadora, eu diria. Então, ver um desses grandes diretores, que acabou de sair de uma aclamada adaptação de uma aclamada história em quadrinhos, dirigir um roteiro que ele mesmo escreveu torna-se uma experiência única nesse mar de remakes.
A direção de Nolan, enérgica e precisa, já impressiona por si só. Mas, no caso de “Inception”, o que chama atenção é o roteiro, amarrado de forma assustadoramente coesa, transformando uma complexa trama em algo compreensível. Muitos argumentam que o filme se explica demais. Se isso é verdade, como é possível que muitas pessoas não tenham entendido o filme? Digo mais, será que realmente existe uma mensagem pontual, a ponto de você dizer “entendi o filme”? Eu acho que não. É algo mais reflexivo, passível de inúmeras interpretações.
Em “Inception”, Leonardo DiCaprio é Dom Cobb, um experiente ladrão, especializado em adentrar os sonhos de, geralmente, grandes pessoas do mundo corporativo, a fim de roubar seus segredos. Colocando em poucas palavras, o ato de levar uma pessoa a ter determinada idéia, plantando uma informação na mente dela através dos sonhos, é chamado de inceptio
n. Cobb é contratado por Saito, interpretado por Ken Watanabe, para realizar esse ato com o filho de um poderoso magnata, para que este tenha seu império dividido e assim Saito possa tomar controle de maior parte dos negócios antes monopolizados.
O desenrolar dos fatos atrai tanto a atenção que acaba por causar um efeito semelhante ao que senti durante “A Laranja Mecânica”, do mestre Stanley Kubrick. No clássico de 1971, Alex DeLarge, antes um estuprador, fã de brigas e da boa e velha ultra-violência, se vê “curado” pelo método Ludovico e encontra-se indefeso na parte final do filme, fazendo os espectadores sentirem certa compaixão por aquele homem transformado. Em “Inception”, Nolan vai jogando com o roteiro de modo que, em determinado momento, onde Robert Fischer, interpretado por Cillian Murphy, vai abrir o portão final, as pessoas acabam torcendo para que ele de fato veja e ouça o que sei pai tem a dizer. A cena traz até uma pesada carga emocional, retirando do filme qualquer valor ou julgamento moral, tornando os conceitos de “bandidos” e “mocinhos” meros preceitos superficiais na trama.
O filme demora um pouco para engrenar, é verdade, mas quando deslancha, é algo genial. Os efeitos especiais colaboram com o filme, sem nenhum grande exagero. A fluidez das cena
s, especialmente a que Joseph Gordon-Levitt, muito bem em seu papel, trava uma batalha sem gravidade contra os seguranças do sonho de Fischer é algo completamente crível naquele contexto. A forma como Nolan conduz ação me incomoda um pouco, mas como não é isso que espero ao assistir um filme dele, acaba por não ser um grande problema. Por outro lado, acho interessante como, até nas cenas de ação, o clímax está mais na dramaticidade do que na ação propriamente dita.
Isabela Boscov, em sua resenha na Revista Veja, fez a infeliz comparação de “Inception” com “Morangos Silvestres”, de Ingmar Bergman, apontando como o diretor sueco fez “mais com menos”. É uma comparação totalmente descabida, em minha opinião. Se fosse para comparar, eu assemelharia, obviamente, a “Matrix”, a comparação mais óbvia. E, se fosse para estabelecer essa comparação, eu diria que “Inception” é o “Matrix” que deu certo. Cada um tem seus méritos, claro, mas Nolan conseguiu, pelo menos comigo, uma imersão muito maior em tudo aquilo que acontecia, em diversos níveis e camadas, diferente de apenas uma pílula azul ou vermelha.
Mas, a sensação que mais me intrigou durante o filme foi aquele quê de “A Hora Do Pesadelo”. Essa sim acho uma comparação mais plausível. Fico feliz de ter vivenciado essa coisa de não saber o que é sonho, o que é realidade, e, quando você acha que tem certeza de alguma coisa, bum, leva um tapa na cara. Não dá pra saber se o final foi o sonho, se o começo já era um sonho, se tudo aquilo foi um sonho.
O final, inclusive, acaba por ser um grande exemplo desses tapas na cara. São muitas as possíveis interpretações. Ele está num sonho? É a realidade? Seria a realidade um sonho, ou um sonho a realidade? É complicado de se tirar uma resposta conclusiva. Essa resolução teria tudo para ser extremamente insossa, não fosse aquele close no totem de Cobb. Dessa forma, Nolan dá uma continuidade ao filme, dentro de nossas cabeças, nas discussões em mesas de bar ou em fóruns da Internet. Acabou sendo um final meio conto de fadas, meio “A Rosa Púrpura do Cairo”. Eu geralmente não gosto desse término aberto, mas, em “Inception”, ele acabou se mostrando o melhor possível. Paradoxo…
PS: Dois fatos que me chamaram a atenção após eu terminar de fazer este texto, enquanto eu estava lendo artigos pela Internet. Primeiro, a trilha sonora. Acabei nem falando dela, mas acho que nem é necessário, tamanho acerto de Hans Zimmer. O detalhe curioso fica por conta disso aqui. E, para terminar, você sabia que quatro atores diferentes interpretaram os filhos de Leonardo DiCaprio, mas com idades diferentes? Dê uma olhadinha aqui. Novamente, paradoxo…
Por Paulo Gadioli


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