
Bom, o Paulo é quem escreve de filmes por aqui, mas vou me arriscar uma vez na área. Esse post tratará sobre cinema, mas com o mesmo e talvez até maior peso estará outro meio: histórias em quadrinhos. A meu ver, a melhor expressão para o caso de Watchmen, objeto deste texto, não é história em quadrinho, mas graphic novel. O enredo relacionado à Guerra Fria e a complexidade dos personagens diferem de tudo o que é, para mim, uma reles história em quadrinhos.
Não sou um mestre no assunto, tanto que esse foi o primeiro comic book que eu li, mas é gritante a diferença entre uma edição de Turma da Mônica e um capítulo de Watchmen. A comparação é absurda, mas é provavelmente o único referencial que eu tinha anteriormente no ramo. Se o parâmetro não for a revistinha protagonizada pela dentuça, mas as histórias de super-herois famosas nos Estados Unidos, creio que a disparidade entre os conteúdos, quando comparada a complexidade, ainda é muito grande.
Watchmen é uma distopia, assim como Admirável Mundo Novo e 1984, contudo tem como background a tensão que ocorreu entre Estados Unidos e União Soviética durante pouco menos da metade do século XX, diferindo das duas obras famosas de Aldous Huxley e George Orwell, que consideravam sociedades fictícias, com continentes de nomes diferentes, estruturas sociais e valores completamente diferentes dos que temos hoje.
A principal característica da graphic novel escrita por Alan Moore e ilustrada por Dave Gibbons é o espaço em que ela ocorre: Nova York em meados da década de 80, quando a história foi publicada nos Estados Unidos. Uma tensão crescente se espalha na população estadunidense, pois a guerra do Afeganistão está próxima de ter consequências trágicas, ou seja, um conflito nuclear mundial, que invariavelmente extinguria a população humana.
O enredo tem seu plano de fundo baseado na realidade, com temas que na época eram contemporâneos – como o conflito na terra do tio Bin Laden -, e se passa em uma cidade real, não em um local imaginário como a Gotham City da série Batman. Os personagens, com uma exceção, são extremamente humanos e tem personalidades repletas de falhas, ao contrário dos super-herois mais famosos.

Doctor Manhattan no filme

Doctor Manhattan na graphic novel
Apenas um dos personagens é um super-heroi e ele é a exceção a qual eu me referia. Jonathan Osterman, posteriormente chamado de Dr. Manhattan, é um Ph.D em física atômica que teve seu corpo desintegrado em um acidente dentro de uma máquina de experimentos. Seu corpo acaba se reconstituindo numa curiosa tonalidade azul, sua voz muda e ele se torna uma um símbolo nacional. O governo o utiliza como arma suprema durante a Guerra do Vietnã, alguns o chamam de Deus por seus poderes imensuráveis e a alcunha Dr. Manhattan é difundida mundialmente como consequência de seus feitos espetaculares.
No cinema, Jon parece um ser de outro mundo e é uma caracterização perfeita do que foi desenhado por Dave Gibbons nos quadrinhos. Aliás, o principal trunfo da versão cinematográfica, a meu ver, foi a adaptação dos personagens e seus trajes. Você de fato vê em carne e osso aqueles que foram ilustrados. Desde os Minutemen – Captain Metropolis, Silk Spectre, Mothman, Nite Owl, Hooded Justice, Comedian, Dollar Bill e Sillhouete – aos Crime Busters - Captain Metropolis, Dr. Manhattan, Silk Spectre 2.0, Nite Owl 2.0, Comedian, Rorschach e Ozymandias -, todos os principais indivíduos da história são representados e trajados como imaginei na vida real.

Crime Busters: Dr. Manhattan, Comedian, Silk Spectre II, Ozymandias, Captain Metropolis, Nite Owl II e Rorschach
Minutemen e Crime Busters. As expressões ficam vagas, ainda mais com todos esses nomes aparecendo aí. Se você assistir apenas ao filme, não endenterá quem são os primeiros e nem saberá que os segundos formaram um grupo com esse nome. Por isso a graphic novel é muito melhor na minha opinião. Mais detalhista, ela cria um universo e apresenta as crises pessoais e sonhos de cada personagem, como a admiração de Adrian Veidt (Ozymandias), a Alexandre, o Grande, e a personalidade conturbada de Eduard Blake (Comedian), que é o indivíduo mais interessante da história na visão deste que vos escreve, por ser descrito por outros de dentro da história como uma paródia da sociedade humana da época. O que isso significa? Ele não tinha princípios. Ou melhor, seus princípios eram a violência e a brutalidade como meios para obtenção do sucesso.
Violência e brutalidade são duas palavras que caem bem para descrever o filme. Enquanto nos quadrinhos existem cenas fortes, estas ficam muito piores (ou melhores, dependendo do ponto de vista) no cinema. É justa a classificação para maiores de 18 anos, porque chega a ser chocante em algumas cenas como as ilustrações foram “animadas”.

Minutemen: Silhouette, Mothman, Dollar Bill, Nite Owl, Captain Metropolis, Silk Spectre, Hooded Justice e Comedian agachado
Três detalhes finais presentes nos quadrinhos merecem destaque: os excertos musicais ou de pessoas notáveis como conclusão dos capítulos; os anexos de livros e revistas complementares de cada capítulo; os trechos do vendedor de jornal e seus clientes que discutem quando começará a Terceira Guerra Mundial.
Frases de Bob Dylan e Einstein ilustram o último quadro de cada episódio. E o fazem com maestria. “The release of atom power has changed everything except our way of thinking… The solution to this problem lies in the heart of manking. If only I had known, I should have become a watchmaker”, disse Albert Einstein um dia. E Alan Moore se aproveitou da afirmação do gênio, utilizando-a para fechar a parte em que é contada a história de Jon Osterman, o Dr. Manhattan.
Essa frase não aparece no filme, mas a trilha sonora foi bem selecionada e aplicada, sendo coerente com os quadrinhos. Destaco a cena de abertura, que mostra os Minutemen, quase desprezados na versão de cinema, mas colocados em destaque nesse trecho:
O segundo detalhe são os anexos ao final de cada capítulo da versão impressa. A impressão que estes me passaram foi de maior veracidade e profundidade no mundo de Watchmen. Os vigilantes realmente foram notícia, ficaram famosos, escreveram seus livros, foram objetos de estudos… Enfim, cada anexo adiciona muito à história e dá maior sentido a ela. Infelizmente, o conteúdo quase não aparece no cinema, o que é compreensível, mas não deixa de ser uma lacuna na narrativa.
Também ausentes do filme estão as cenas com o vendedor de jornais, que aparece mas não fala nada, enquanto nos quadrinhos várias situações se passam neste ambiente. Os vigilantes, personagens principais, podem ser pessoas comuns como nós, mas o leitor provavelmente se identifica melhor com um cidadão que passa todo dia na banca de jornal, discute atualidades e, quando algo grande como uma guerra iminente está para ocorrer, aborda o assunto nas conversas diárias. É com estes indivíduos impotentes frente um conflito mundial que existe maior empatia. É o sentimento de medo deles que qualquer um sentiria. E justo esses personagens não têm destaque algum no filme.
Acredito que o grande mérito de Alan Moore foi destacar a angústia desses herois sem superpoderes e das pessoas comuns frente ao caos que se tinha medo durante a Guerra Fria. Watchmen é, além de uma boa história, um documento que registrou o que era viver nessa época. Sinceramente? Prefiro ter nascido depois de tudo isso.

O galã criador da história: Alan Moore
Por Rodrigo de Sousa Trindade
PS.: Daria pra falar muito mais, mas só de saber que você já leu até aqui, fico grato e espero que tenha valido o tempo gasto.
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